um desabafo do tamanho do céu quando está alaranjado


Vocês, seus seres humanos fingidos, insensíveis e vazios! Vocês, e repito o vocês porque é má educação e merecem, fazem pouco das palavras. As palavras, a única coisa que me resta. Não tenho jeito para nenhuma outra coisa. Por alguma razão nasci com isto das palavras e tiram-me essa última coisa que tenho por caprichos e afirmações desprovidas de conteúdo ou significado. Gostava de poder dizer um “não estou bem” sem ser rotulada como pessoa com sede de atenção. É horrível que tenham gasto palavras tão fortes como estas ao ponto de serem confundidas com brincadeiras que têm como objectivo o holofote, o carinho forçado e falso e as palavras amigas sem no entanto o serem verdadeiramente. São todos tão iguais, enjoativos como um caramelo muito doce com açúcar amarelo, repetitivos como um disco arranhado pelas unhas de um gato persa e desinteressados e desinteressantes porque é parecido mas não é a mesma coisa e quis confundir-vos um bocado porque sou vingativa e estou farta de ser a única.
Nunca fui muito similar ao resto. Não sei se isso é bom, se é mau, se é melhor ou pior que qualquer outra coisa. Não se trata de uma verdade universal, infelizmente, e tenho que aprender a jogar com todas estas características porque são as únicas que tenho. Seja uma fase má que às vezes acontece, seja um dia sem música e uma língua sem chá e todas essas coisas horríveis e tristes… Seja o que for, só sei que gostava de me encaixar por um poucochinho. Quero imenso deixar de sentir que dentro de mim vive um noite escura e triste e que o Sol foi roubado das minhas mãos como se a minha pele o queimasse e ele tivesse medo.
O que aconteceu é muito simples na verdade. Estava num sítio sem espaço às horas sem tempo e os meus pés fugiram-me quando tentava andar. Os meus olhos ficaram nublados pela chuva, a boca estava mordida e fechada. Vi-me ao espelho e descobri que era uma bola de papel amassada gigante com braços e pernas. Foi já há um tempo sem minutos mas depois alguém fez de mim origami e agora sou um barco e velejo por um rio melancólico e cinzento porque é uma cor feia e eu não gosto. Não sei o que estou aqui a fazer. Nem gosto de rios; cheiram mal. Esta água sabe mal também e não arranjo sentidos para as velas, verdades para a âncora, emoções para os remos, sorrisos para os peixinhos e beijos para a espuma. Não arranjo nada excepto o meu aspecto para ninguém reparar a confusão que sou.
Desabafos não são desculpas e quero deixar isso claro. Não sou a melhor pessoa do mundo. Não sou a mais culta, a mais engraçada nem a mais simpática. Mas acho que tenho direito a sentir. E sinto muito, sinto tanto que o meu peito às vezes se arqueia sobre o meu olhar baixo e desamparado como uma conta matemática cheia de balões e sopros que tem como solução uma explosão enorme e sonora. A segurança foi-se embora com cada palavra feia que me entrou a cem e infelizmente não saiu a duzentos.
Tenho amor para dar. E carinho, imenso carinho. Então, decidi-me, fui comprar uma caixa e num acto egoísta de desespero pus tudo o que tinha lá dentro. Fiz um laço bonito e tudo. Esperei nove minutos porque é o meu número favorito e porque estava numa onda de egoísmo. Olhei para o embrulho lilás porque gosto de lilás e não quis ser incoerente e abanei a caixa com algum esforço. Tenho muitas coisas e por isso não cabia tudo numa caixa pequenina. Não tenho muita força nos braços, nunca tive, mas peguei na caixa com as mãos. O único peso que senti foi do cartão e do cetim e depois chorei muito como se me tivessem dito que a minha alma morreu. Foi nesse dia que descobri que estou incapacitada de dar amor e carinho como prenda de Natal. Já tentei dar aos outros e funcionou durante uma ou duas festas de aniversário (porque para o Natal guardei outras prendas mais bonitas) e depois enganei-me e pus lá dentro mais de mim do que devia. Quando veio cá para fora o que lá estava as pessoas assustaram-se e fugiram.
A história da minha vida nem é bem triste mas não tem interesse nenhum. É triste às vezes. Se fosse sempre não era tão má quanto isso porque assim eu iria pensar que era normal. O bom da minha vida é que é minha. Tentei dar-lhe cores e números bonitos e acho que mesmo assim não funcionou.
Vou dormir para o isolamento porque lá ao menos estou segura e tenho tempo para pensar em coisas melhores para oferecer de presente, primeiro a mim, depois aos outros. E pode ser que assim volte a poder arranjar-me por pura vaidade e volte a poder chorar por mimo e não porque o que me sobra cá dentro é nada. 

11 comentários:

  1. "E pode ser que assim volte a poder arranjar-me por pura vaidade e volte a poder chorar por mimo e não porque o que me sobra cá dentro é nada." adorei!

    ResponderEliminar
  2. Nunca me tinha cruzado com o teu blogue antes, e depois de ler este texto não fui capaz de indiferentemente fechar a página e continuar com as minhas banalidades. Li mais uns quantos textos e por aqui vou continuar. Escreves muito bem Maria :) Só mais uma coisa: há muitas pessoas a fazerem pouco das palavras, mas é por causa de pessoas como tu, que elas ainda valem a pena ser lidas!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. oh, meu deus! que querida, Mariana. foi das coisas mais amorosas que já me disseram, juro :) gostava de te explicar o quão grata e feliz fico por ter lido estas palavrinhas. muito muito obrigada, linda, i mean it.

      Eliminar
  3. É verdade: às vezes só nos sobram as palavras. Parece pouco, mas não é. São alavancas que usamos para sair do alçapão. E quem sente e escreve como tu devolve ao mundo as lágrimas em papel prateado com tons do teu querido lilás. Como presentes especiais, que nem todos percebem nem merecem.
    Para mim, basta-me a prenda que é ter-te como filha. Sê tu. O mundo agradece :)

    ResponderEliminar
  4. Cada vez escreves melhor, e tudo o que sentes, não és a única,a sério, enquanto as palavras são a tua escapatória, a minha é a música, nada como boa música para desanuviar as ideias e maus pensamentos do dia, continua Maria, you got talent girl :)
    (Rodrigo Rodrigues)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. agradeço-te tanto por isto, a sério que sim! muito muito obrigada. para mim estas pequenas palavras valem de muito. e btw, se precisares de qualquer coisa, estou aqui :) beijinhos

      Eliminar
  5. Emociono-me sempre que leio os teus textos, porque as tuas palavras sabem falar.
    E pensar que fazes parte de mim!
    Cada vez exprimes melhor e com mais intensidade o que te vai lá dentro.
    ADORO a pessoa que tu és.
    És tudo o que eu sempre quiz ter como filha.
    Adoro-te mais do que a mim mesma. E tu sabes que sim.
    Tua mãe orgulhosa de ti.

    Tua mãe orgulhosa de ti.
    São Café


    ResponderEliminar
    Respostas
    1. sabes que adoro com todo o meu coração, mamã.

      Eliminar
  6. Já li alguns dos teus textos e para ser sincera, nem sei ao certo o que dizer! Sem dúvida que escreves muito bem, utilizas as palavras de uma maneira quase única, são poucas as pessoas que hoje em dia o fazem, a maior parte delas usa-as e pronto e nem sempre é correto fazê-lo. Talvez não tanto pela maneira que escreves mas sim, como escreves .. As palavras são a tua calma e são elas que por vezes te fazem fugir, nem que seja por um mínimo período de tempo e isso ? isso é especial (: Pelo que li, fiquei maravilhada e sem dúvida que tens espaço e asas para voar ainda mais alto, não desistas!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. muito muito obrigada pelas tuas palavras, Inês! é óptimo saber que foste mais além ao ler os meus textos e que os sentiste. adoro isso!
      ps: não consigo encontrar o teu blog..

      Eliminar